Belo Horizonte, domingo, 17 DE novembro DE 2019
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A HISTÓRIA DE UM LAR BOM PRA CACHORRO


             Dividir um apartamento de dois quartos com um brincalhão, uma dominadora, um rabugento e um tranquilão não deve ser tarefa das mais fáceis. Agora, imagina que estas tão distintas personalidades não são seres humanos: são cachorros. É nessa rotina "maluca", porém bastante prazerosa, que vive o arquiteto João Oliveira, morador no nosso vizinho Estoril, mas que já é muito conhecido no Buritis, uma vez que, diariamente passeia com a turma aqui pelo bairro.

            A história de João começou a mudar há cerca de cinco anos, quando o Roque surgiu em sua vida. O arquiteto havia saído da casa dos pais a pouco tempo e queria ter um animal de estimação como companhia. Estava prestes a adotar um gato, quando em um posto de gasolina avistou um morador em situação de rua, alcoolizado, que claramente iria se livrar do filhotinho. Não pensou duas vezes, recolheu o animal e o levou para seu apartamento. Mal sabia ele que, a partir dali, sua vida iria mudar para sempre.

            O jeito divertido de Roque trouxe muita alegria à vida de João. E um ano depois, durante um passeio, Roque acabou fazendo amizade com a cachorrinha Bebela. Brincando, ela o acompanhou até em casa. Vendo que estava com uma pata quebrada, e que aquela amizade ia ser duradoura, o arquiteto decidiu tratá-la. Daí em diante sua casa tinha uma nova dona. "Ela é a única fêmea, a dominadora. Ninguém se atreve a mexer com a Bebela", brinca.

            Passados alguns anos e um novo um cãozinho apareceu na vida de João. Mas, diferentemente dos outros, o Boris teve de ser pego a força. Era arredio com a aproximação de humanos, com certeza fruto de muita violência que sofreu. Mesmo assim, o arquiteto se arriscou, o domou e o levou para sua casa. "É o nosso rabugento. Ainda está arredio com homens, mas já mudou bastante. Com a nossa convivência, aos poucos foi percebendo que existem muitos seres humanos bons".

            Por fim, a chegada de Romeu há apenas dois meses. Este não estava nos planos do arquiteto. Não podia mais ter cães no apartamento. Uma vizinha o encontrou e perguntou se ele conseguiria encontrar um lar para o cãozinho, pequenininho, faminto. João até tentou achar um dono, mas o carinho de Romeu logo o fez desistir da ideia. "Esse é o tranquilão. Carinhoso ao extremo. Você sente o amor que ele tem por você. Não tinha como não ficar com ele".

A rotina

            Por trabalhar em casa, João tem maior facilidade em lidar com a manutenção dos cães. Se tivesse de ficar fora o dia inteiro, era bem provável que não ficaria com os quatro. Apesar das personalidades tão diferentes, todos se dão muito bem. E nesse todos inclua-se o dono. "Quando eu começo a trabalhar eles ficam deitados aos meus pés. Me passam amor, alegria. Mas de vez em quando dou umas broncas também. Simplesmente, a realidade de uma família. Faço parte de uma casa de sete irmãos e era assim. Cada um do seu jeito, com sua personalidade. Que bom que meu apartamento virou um verdadeiro lar".

            Todos os dias, por volta das 18h, o arquiteto coloca a coleira na trupe e sai para a rua. A caminhada é longa. Morador no final da Paulo Piedade Campos, João passeia com todos até a região central da Mário Werneck. Andar com quatro cães é algo que chama a atenção. "Muita gente já nos conhece. O Roque, então, muito mais do que eu. Tem vendedora que sempre dá um petisco, brinca. A espera na porta da padaria é sempre acompanhada de um carinho. Fico muito feliz em ver que as pessoas gostam da gente, apesar de alguns ainda reclamarem".

            A reclamação citada por João vai muito do edifício onde mora. A maioria dos moradores o apoia. Contudo, alguns não gostam. Inclusive, um síndico já chegou a intimá-lo alegando que ele teria prazo de um mês para se desfazer dos animais. Ingenuidade dele achar que o arquiteto iria abrir mão de seus grandes amigos como se fossem um objeto qualquer.

"Eu procurei uma advogada e mostrei ao síndico que eu tenho o direito de ter meus cães, desde que não causem importunação. Eu gosto de limpeza, organização. Para se ter uma ideia, tenho 500 CDs guardados em ordem alfabética. Claro que não há como ser uma residência com a rotina de uma que não tem animais. Tem pelo, coco, latido, mas tudo dentro da normalidade. Depois do meu caso, tive amigos que me procuraram dizendo que estavam passando pelo mesmo problema e que também iriam à justiça se fosse preciso".

Uma paixão

            E só mesmo quem conversa com João para entender o amor que ele sente por esses animais. Uma prova é que a família era para ser ainda maior. Depois da Bebela, o arquiteto teve um outro cão, o João Grandão. Porém, esse veio a falecer em virtude de complicações de uma leishmaniose. Ainda hoje, ao lembrar, as lágrimas escorrem pelo seu rosto. "Nossa, foi muito difícil. Fiquei ao lado dele até o fim. Não consigo nem imaginar como será quando o próximo partir", emociona.

            Quanto a ter quatro cães adotados, João não tem qualquer preconceito a cães de raça, apenas fez essa opção por acreditar que estaria fazendo um bem maior. "E não se trata de um ato social. Porque o que eles me dão, de amor e companhia, é muito mais do que poderia imaginar. São eles que me salvam diariamente". João Oliveira está com 56 anos. Roque apareceu em sua via quando tinha 51,como ele mesmo brinca lembrando aquele conhecido slogan de uma aguardente: “Não foi uma boa, mas a melhor ideia".

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