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Integração pela proteção

Integração pela proteção


Aos poucos, projeto “Rede de Vizinhos Protegidos” volta a ser discutido e implantado no bairro; major da PM pede mais integração entre os moradores de rua por rua
 
Um grande sucesso em Belo Horizonte, o programa “Rede de Vizinhos Protegidos” já foi motivo de várias pautas em reuniões com a Associação dos Moradores do Buritis, polícia e comunidade. Mas, infelizmente, o programa ainda não pegou pra valer por aqui, mesmo tendo dado bons resultados em outros bairros da cidade. Mas em um bairro com moradores tão esclarecidos e que a todo momento buscam alternativas para se sentirem mais seguros, por que aqui o programa não funciona como devia?
 
Um dos principais problemas apontados pela Polícia Militar estaria na dificuldade de entrosamento entre os vizinhos. Segundo o comandante da 126ª Cia do 5º BPM, Major Claudiney de Oliveira Leite, pelo fato de o Buritis ter uma grande rotatividade de moradores, com novas construções e moradias a cada dia, isso prejudica um contato mais próximo entre os vizinhos e, consequentemente, impede que se forme uma corrente com os envolvidos, despertando assim uma preocupação, não só consigo mesmo, mas com o ambiente em que mora como um todo.
 
“Nas reuniões que já fizemos, reparamos que muitos vizinhos nem se conhecem. Nossa grande dificuldade é criar esse vínculo entre os moradores. Para que o programa tenha eficácia, é fundamental que a comunidade tenha um contato mais estreito de vizinho com vizinho. Façam reuniões, tenham os telefones uns dos outros, é ter um sentimento de coletividade, de se importar com o seu próximo. O individualismo é o fator que mais prejudica a eficácia do programa no bairro”, explica o comandante da PM.
 
Para o major, o ideal é que cada um procure formar sua rede. Não é preciso um sistema interligado de todo o bairro, mas sim de cada rua. “É uma iniciativa que tem que partir dos próprios moradores. Se alguém tem o interesse de montar o ‘Rede de Vizinhos Protegidos’ em sua rua é só entrar em contato com 126ª Cia e nos avisar, que assim podemos passar de residência em residência para marcamos uma data e explicarmos o que pode e deve ser feito para que a ideia se transforme em um instrumento eficaz de combate a arrombamentos de casas e demais crimes que podem ser evitados”, destaca Claudiney.
 
Para se ter uma ideia do quão simples é formar o “Rede de Vizinhos Protegidos” e o quanto ele facilmente pode ser eficiente, basta apenas que haja boa vontade dos participantes, a atenção mútua dos moradores, uma lista de contatos dos envolvidos e o contato com a Polícia Militar. “Com tudo isso em mãos, basta, caso vejam alguma atitude suspeita, que entre em contato diretamente conosco pelo telefone da 126ª Cia que é o 3378-1332”, lembra o major.
 
Funciona na prática
 
Um exemplo claro de que não há a necessidade de esperar uma medida conjunta de todo o bairro, mas sim de cada um buscar desenvolver o programa com o seu vizinho, é na rua Esmeraldo Botelho. Nesta via, sob a iniciativa de moradores, acontecendo exatamente como explicou acima o major da PM, foram realizadas reuniões entre os vizinhos e a polícia, para que houvesse um treinamento e, principalmente, uma integração de todos e, a partir de então, começou a funcionar o programa.
 
Segundo uma das idealizadoras do programa nesta rua, Stela Maris de Carvalho Rodrigues, a iniciativa aconteceu depois que ela foi vítima de um assalto na sua residência em outubro de 2009. “Dois homens bem aparentados e armados renderam meu marido na garagem. Na subida da escada renderam meu filho e no apartamento fizeram o mesmo comigo e minha irmã. Eles nos prenderem num cômodo da casa e fizeram uma limpa. Roubaram roupas de marca, calçados, computador, nos ameaçaram querendo dinheiro e joias que não tínhamos, levaram brincos, alianças, tudo dentro de malas e saíram numa boa, sem que ninguém desconfiasse. O pior não foi nem os bens materiais, mas sim os cerca de 40 minutos que fomos reféns dos bandidos”, explica.
 
A partir daquele momento, Stela começou a contar pelo que tinha passado para os demais vizinhos para buscarem em conjunto uma solução para a rua. “Depois que comecei a conversar com os demais moradores, fui descobrindo que aqui estava tendo uma média de 10 arrombamentos por semana. Começamos a fazer reuniões então com os interessados e com as vítimas para discutirmos o que poderia ser feito. Surgiu a ideia de guaritas, que logo foi colocada de lado pelo preço do investimento; câmeras pela rua, que também não foi adiante, até que em uma reunião foram convidados moradores de locais onde havia a ‘Rede de Vizinhos Protegidos’ que nos disseram o quanto o programa estava funcionando em suas comunidades”, lembra.
 
Com a ideia formada de que talvez seria esta a melhor opção, os moradores entraram em contato com a Polícia Militar para que uma nova reunião com representantes da 126ª Cia fosse marcada. “Nesta reunião, o Major Claudiney mandou a Soldado Edilene e o Sargento Braga que passaram de casa em casa avisando e marcando a data. Foram 39 moradores presentes. Começamos naquele momento a desenvolver uma lista dos interessados em participar, com nome, e-mail e telefone e, aos poucos, estamos cada vez mais próximos, trocando vários e-mails e discutindo assuntos ligados ao programa”, reforça Stela.
 
Depois de iniciada a Rede, várias ações foram feitas. A primeira delas foi a afixação de placas informando que a rua faz parte do programa — uma medida para tentar coibir os bandidos. A segunda ação, atendendo à máxima do programa de que é preciso interação entre os vizinhos, foi a realização de uma festa junina. “Através do e-mail do grupo, decidimos organizar o evento para conseguirmos ainda mais a integração entre os moradores. Cada um ficou responsável por alguma coisa e acabou sendo um sucesso. A polícia estima que no dia foram mais de 300 pessoas na festa, onde todos foram cadastrados”, destaca a moradora.
 
E o programa, apesar de ainda estar em fase de teste na rua, já está surtindo efeito. “Primeiro porque a PM já mostrou que está mesmo disposta a contribuir para que o ‘Rede de Vizinhos Protegidos’ funcione. Além de estarem sempre atentos às nossas demandas, eles agem muito rápido quando ligamos. Teve um caso, que foi um mal entendido, mas que ficou claro isso. Uma moradora ligou para a Cia informando que após um carro entrar na garagem em frente ao seu prédio, dois homens entraram correndo atrás, em atitude suspeita. Esse dois homens eram moradores do prédio, mas o interessante foi ver a polícia chegando minutos depois. Se fossem bandidos, eles não teriam tempo de roubar nada”, afirma Stela.
 
E para mostrar o quanto o sentimento de integração tomou conta dos vizinhos desta rua, um dos moradores, o cantor e compositor Renato Matos, da dupla Antônio Carlos & Renato, fez até uma poesia para a iniciativa e enviou o seguinte email para os demais moradores: “Porque moramos aqui, aqui é o nosso lugar. Enquanto nós estivermos aqui, nós vamos cuidar. Todos nós, juntos, num só pensamento, um olhando pelo outro”.

 
 

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